Alimenta e não preenche


Assim que acordo - ou quando vou ao banheiro. Assim que chego em casa, ou minutos entediado no trabalho, na fila do atendimento. Tudo é motivo e razão para me perder no feed interminável de notícias, vídeos e curiosidades que a tela me proporciona. Vício? Não, mas quase…

Eu sei e tenho consciência que já fui muito pior. Que antes toda e qualquer desculpa era desculpa. Que passava horas e horas sentado no banheiro do vaso procurando sabe-se lá o quê. Lembro muito bem desses dias.

Hoje é levemente diferente. Assim que entro no banheiro, o celular está comigo. A desculpa que rapidamente elaboro para mim mesmo é: como vou ficar um tempo, nada mais cômodo do que assistindo (ou consumindo) alguma coisa - seria o meu gatilho? E então, de forma inconsciente (mas justificada) me permito ficar minutos, que nunca tem fim, nesse feed, sendo “alimentado” por imagens e textos aleatórios que eu sequer escolhi. Por conteúdo que eu sequer sabia existir. Não importa a qualidade.

E isso me vicia, me quebra por dentro. Causa desconfortos e arrependimentos. Os livros na estante me encaram com desaprovação. E com o passar dos dias não me permito minutos em silêncio em momentos que eu deveria estar. Minha mente está sendo o tempo todo bombardeada por alguma música recortada e distorcida, meme, mídia ou maluquice. Pode ser algo engraçado, uma nova guerra, uma denúncia, uma reportagem, uma opinião. Tudo me interessa nesse ralo para minha atenção, tudo me distrai. Eu perco a direção e o foco.

O plano para logo mais? Simples: deixar mais de lado, menos presente e menos a mão. Às vezes no carro, ou na bancada da cozinha, menos comigo. Mais livro, quadrinho, leitura focada, estudo, menos distração. Mais silêncio (ou música), menos entrega fácil do meu tempo, mais disciplina e atenção.

E no fim tudo se resume a isso: o bom uso que faço do meu tempo, nesse tempo, pelo tempo que me resta.


Marcel

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