Fartos Recomeços

Não gosto de recomeços. Há algo em mim que me diz que recomeçar é admitir falhas. Um erro. Eu sou cheio de recomeços. Estou farto deles - e nunca satisfeito.


Me ajeito na cadeira. Encontro na poltrona uma almofada nova e mais macia. A temperatura do ar está do meu agrado. Uma última checada no celular e estou pronto para começar. Rapidamente revisei uma nota mental sobre dois ou três assuntos que gostaria de pôr na mesa. É meu segundo dia de terapia. Não conheço bem meu ouvinte. No meu íntimo, sinto a necessidade de olhos e ouvidos mais treinados (alguém mais velho?) para propor novas soluções para velhos problemas.

Meu ouvinte me interrompe. Inesperado, pensei. Há algo novo. Ele não vai mais ser meu terapeuta. Sou um caso sem solução? Devo apelar pra psiquiatria? Não, não é isso. Ele está de mudança. Há uma novidade, claro, que o levará a novos campos. Novos ares, novos voos. Longe de onde estou agora.

A sessão nem termina e nem começa. É apenas uma despedida de duas pessoas com pouca intimidade construída. O trabalho que imaginei dar frutos no tempo certo, vai recomeçar, do zero, e antes do que eu esperava. Saio decepcionado. Noto que há apenas uma única flor no jardim.

Hoje, esse entretanto, as palavras curtas, e a rápida despedida, me levam a crer que recomeçar é tão válido quanto conversar sinceramente consigo mesmo. Aliás, eu recomecei uma vida inteira anos atrás, e agora (re)avalio muitos valores antigos, antigos e cercados por muros altos construídos com certezas. Família, laços, amor. Tudo isso adquiriu novos tons mais nítidos. São quase lembranças vagas de alguma lição dos tempos do colégio.

Que venha um novo recomeço. Estou com a cara limpa, a alma lavada - e com cada coisa no seu devido lugar. Não há ansiedade, nem expectativas. Apenas um apontamento na agenda para uma próxima quinta-feira. Naquele horário terei a liberdade e a chance de começar mais uma vez. Falar e me escutar. Deixar do lado de fora o que está dentro, subir à superfície com o que no profundo me incomoda.


Percebo agora que há mais flores nesse caminho - e novos caminhos a seguir.


Marcel

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