Postagens

Mostrando postagens de dezembro, 2025

Medo da Eternidade

Imagem
Autora: Clarice Lispector Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas. Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:  – Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.  – Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa. – Não acaba nunca, e pronto. Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E ei...

Um Som de Trovão

Imagem
 Autor: Ray Bradbury [...] — E todas as famílias das famílias daquele rato! Com um pisão de seu pé, você aniquila primeiro um, então uma dúzia, então mil, um milhão, um bilhão de ratos, possivelmente! — Então estarão mortos; e daí? — E daí? — Travis torceu o nariz. — Bem, e as raposas que precisariam daqueles ratos para sobreviver? Para cada dez ratos a menos, morre uma raposa. Para cada dez raposas a menos, um leão morre de fome. Para cada leão a menos, insetos, abutres, infinitos bilhões de formas de vida são lançados ao caos e à destruição. Eventualmente, tudo recai no seguinte: cinquenta e nove milhões de anos depois, um troglodita, um, de uma dúzia no mundo inteiro, vai caçar javalis ou tigres-dentes-de-sabre para comer. Mas você, amigo, pisou em todos os tigres daquela região. Pisando num só rato. Assim o troglodita morre de fome. E este homem das cavernas, note bem, não é qualquer um dispensável, não senhor! Ele é toda uma nação futura. Dele, teriam saído dez filhos. E deste...

Penso, logo, me desculpo

Imagem
Tenho um problema sério com expressões adversativas como "mas", "porém"... Seria exagero rotular como vício?  Talvez sim, ou nem tanto. Hoje porém (é óbvio que uma delas ia fazer parte dessa reflexão), sinto que isso tem muita relação com amor próprio . Como exerci pouco na vida (até tempos recentes), aflora em mim a necessidade fora do comum em acrescentar essas expressões ao final de cada período, frase dita ou pensamento. Ao colocar minhas emoções na mesa, percebo que esse é um (péssimo) hábito que carrego comigo dioturnamente. São anos assim mas (por que não?), apenas nos últimos, me observar tornou possível identificar esse comportamento errático.  Os meus pensamentos rasos e reflexões mais profundas são carregadas de "mas", não importa o tópico, assunto ou circunstância. Afinal, esse costumo além do normal de a todo e qualquer instante pedir "desculpas" ou mesmo vergonha por estar presente é um eterno pedido de perdão (a mim mesmo?) por pen...

What Was I Made For? - Billie Eilish

Imagem
  Para Que Fui Criada? What Was I Made For? Hum, hum Mmm, mmm Hum Mmm Eu costumava flutuar, agora só caio I used to float, now I just fall down Eu costumava saber, mas agora não tenho certeza I used to know, but I'm not sure now Para que fui criada What I was made for Para que fui criada? What was I made for? Passeando de carro, eu era um ideal Taking a drive, I was an ideal Parecia tão viva, no fim das contas, não sou real Looked so alive, turns out, I'm not real Só algo pelo qual você pagou Just something you paid for Para que fui criada? What was I made for? Hum Mmm Porque eu, eu 'Cause I, I Eu não sei como me sentir I don't know how to feel Mas quero tentar But I wanna try Eu não sei como me sentir I don't know how to feel Mas um dia talvez eu saiba But someday I might Um dia talvez eu saiba Someday I might Hum, hum, ah-hum Mmm, mmm, ah-mmm Hum, hum, hum Mmm, mmm, mmm Quando isso acabou? Todo o prazer When did it end? All the enjoyment Estou triste de novo, não ...

Reflexões do Cotiano - Dezembro.14dom

Imagem
As minhas inseguranças andam me dando um tempo entre uma visita e outra, e quando elas me visitam, elas estão muito menos folgadas. Meus medos agora pedem licença para entrar. Álvaro Borba - "Arvro" Veja mais em A QUIETUDE - vlog #007

Escrever (7)

Imagem
O que é essa necessidade de escrever? O que é esse prazer, me pergunto? O que é esse colocar de pensamentos em um papel? É uma necessidade, ego ou narcisismo? Seria tudo isso? Há dias que estou imune a esse desejo, apesar de sentir que me faz um bem danado de bom estabelecer essa fiel conversa comigo. Não é obrigação, nem hobby - nem mesmo no tempo que chamava diversão. É apenas uma parte de mim que estou descobrindo (descrevendo?). Experimentando cada dia, cada palavra, um pouco mais. Não é só (mas também é) sobre mim, o mundo e minhas percepções. Um desbravar constante até a próxima linha com total liberdade e desprovido de pudores. Consciente e em paz comigo mesmo (ao terminar). Marcel

Pensamentos soltos em frases amarradas (13)

Imagem
S e tudo estiver bem Escreva sobre & Reflita Se estiver tudo mal, tamb ém Marcel

Um lembrança dolorida

Imagem
Escrevo essas palavras durante um dos fevereiros mais chuvosos de que tenho lembrança. Eu estava a ponto de ir ao carro guardar algumas coisas, quando tive que adiar meus planos por alguns minutos. E assim, de forma descompromissada, folheei meu bloco de anotações e me deparei com um tópico que eu precisava escrever, um episódio rápido da minha vida que preciso revisitar. Há alguns dias eu estava com meus filhos e um desses locais destinados ao público infantil. Uma pizzaria/restaurante com diversas opções de divertimentos para as crianças. O passeio foi bem do meu agrado. Enquanto as crianças se divertiam, eu rolei a tela do celular algumas vezes, tomei um drink não-alcoólico e pedi comida para todos. Nesse meio tempo que meus meninos corriam e se jogavam nos brinquedos e a refeição não chegava à mesa, observei os outros pais e clientes de forma desinteressada - não é mais o meu passatempo favorito, porém, de forma consciente, não quis ficar com a cara atolada no celular a noite intei...