Cedo demais
Como é inútil o hábito de escrever. Como é fútil seguir por caminhos tortuosos nessa busca pela próxima palavra. Parto nessa jornada sem facão, mapa ou destino certo. Aqui estou eu mais uma vez na minha selva interior. Em cada árvore, um episódio da minha vida. Algumas têm raízes profundas em mim, outras crescem sem controle me impedindo de pôr o pé no chão com a firmeza necessária.
Necessito caminhar. O tempo escorre em meus dedos como o suor na testa durante o exercício diário. Algumas gotas se misturam aos meus olhos e turvam minha visão. Faço uma rápida parada e bebo da fonte de novas reflexões. Me sento e acalmo a respiração. Pareço chorar, e até creio que estou. Minha sensibilidade aflora quando encaro velhas escolhas com a revelação líquida recém-ingerida.
Faço quantas paradas julgar necessárias para admirar algo incrível que agora posso derramar os olhos com a devida atenção. Eu sou o caçador, explorador e habitante deste local. Retomo essa terra devastada, luto novamente pela posse dos meus sentimentos - quero usufruir daqui um pouco mais.
Refaço mentalmente o caminho anterior o melhor que posso. Alguns detalhes se perderam, eu não tive o zelo de deixar pelo caminho até aqui migalhas de pão ou desenrolar um fio de segurança nesse labirinto interior. Sei que não estou perdido, apenas me encontro em algum ponto entre o começo e o meio - e não sei bem ao certo se já cheguei ou se estou às vésperas de.
Tenho a responsabilidade pelos meus atos. Não me dou ao direito de me incendiar em rompantes de raiva. Pensamentos ruins já contaminaram os meus rios e transformaram a correnteza calma de minhas águas em revoltas e turbulentas. Palavras soltas ao vento podem abalar estruturas inteiras dentro de mim.
Olho para o relógio e me surpreendo com o tempo que passou e a hora: Cedo demais para desistir, tarde demais para me acomodar. Me levanto. Eu preciso continuar...

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