A fé que me resta
Algumas poucas certezas cruzam meus pensamentos enquanto dirijo vagarosamente. O destino é a minha casa. Não deixo de sorrir de leve ao constatar que meus pensamentos seguem sem direção. Ouço barulhos, observo o horizonte que promete ser chuvoso, e dentro de mim alguma tempestade está a margem das minhas percepções.
A conclusão é clara e sincera: há dias não escrevo, não converso comigo mesmo, nem mesmo reflito com mais atenção sobre os acontecimentos recentes. Dias e dias que aos poucos alcançam semanas. Minha atenção atravessa algumas notícias do cotidiano: uma nova guerra por velhos motivos mal explicados e suas justificativas rasas para as montanhas de destruição que a máquina de guerra é capaz de produzir; um furacão se aproxima do litoral da Flórida e as palavras dos governantes são alarmantes, é a vida confrontando a morte certa. Secas intensas, chuvas torrenciais no maior deserto do mundo.
Penso, peso, respiro, resisto. Estou em casa e ainda me permito mais alguns minutos plugado no feed interminável. Chega! Fecho o computador, deixo o celular em um canto, me encerro em mim. São tantas informações, estímulos, opiniões, agressões, ódio, ego, id. Finalizo meu dia concordando em não me permitir montar mais uma vez nesse cavalo desgovernando sem nome e apressado que galopa sem freios em direção ao abismo de vícios mais próximo.
Enfim cerro os olhos e me desconecto da realidade. A temperatura do quarto me agrada, o travesseiro está macio, sinto toques do incenso que coloquei a queimar inundando o ar que invade minhas narinas. As percepções do meu corpo, o conforto que me permito, me agradam. Brinco com os pés, me imagino flutuar, respiro profundamente.
Acaricio o equino imaginário que me conduzia para mais uma frustração noturna com uma única certeza em mente: eu ainda tenho as mãos nas rédeas, e disso eu (nem a sociedade) pode abrir mão.
Essa é a fé que me resta.
Marcel

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