A bagagem
Eu possuía uma bagagem pesada. Uma mala com rodas e alça reforçada. A versatilidade dela me permitia usar como mochila ou mala de mão. Pendurar no ombro? Nenhum problema. Eu levava comigo no carro pro trabalho, do trabalho pra casa, para qualquer cômodo da casa, para o quarto, banheiro, chuveiro.
Essa "bagagem" eram as minhas expectativas. O sabor doce que eu alimentava para cada momento futuro ainda não vivido. As expectativas nutriam meus dias. O ponteiro dos segundos nessa contagem regressiva para momentos melhores. É quase uma ironia que o futebolista (ou ex) Neymar da Silva Santos Júnior resumiria em algumas palavras: saudades do que a gente não viveu. Foi então que me percebi não vivendo, não experimentando, não sendo, não estando.
Ansiar por aquilo que não vivi, projetar alegrias, ansiar por conquistas, era o azedar diário das minhas emoções. A comida não tinha o gosto certo. As diversões me distraiam e não me alegravam. Os dias eram um arrastar lento de horas. Eu nunca era, estava ou sentia. Nada era bom o bastante - e ainda havia a nostalgia cor de rosa de momentos passados para jogar mais água nesse caldo sem sabor.
Foi apenas, e apenas, quando comecei a largar essa minha bagagem, deixando ela ir, sem me preocupar, sem planejamentos em mínimos detalhes desnecessários, sem adiantar momentos, que um novo colorido surgiu.
A comida assumiu um gosto real, minha atenção assentou no presente e agora lido melhor com imprevistos. Aceito que controlo muito pouco ou quase nada da minha vida, e o que cabe a mim é menos ainda. Sorte, azar e os deslances da vida, dependem de fatores alheios a mim ou ao meu esforço. Estar no controle é uma ilusão. Aceitar o incerto é real. O inverso do que pregam. Nem mesmo o esforço é garantia de retorno.
Navegar nessas incertezas, aceitando o imprevisível, foi a melhor coisa que já fiz nesse tempo de vida que compartilho até aqui.
Tudo pode acontecer, inclusive nada.
Marcel
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