Asas

Começo mais uma reflexão na porta da entrada do meu trabalho. É sábado. Eu me programei para realizar algumas demandas no dia de hoje. Com o setor deserto é mais fácil se concentrar em determinadas tarefas, e assim aproveito para escutar uma música ou curtir uma entrevista em algum programa no YouTube.

Vim para cá, meu setor de trabalho, de “alma limpa” como gosto de pensar. Em nenhum momento no caminho, ou nos dias anteriores, me peguei pensando sobre o que iria realizar no sábado. Eu apenas vivi meus dias, li um livro, vi filmes, tomei sorvete, tomei açaí, lavei roupa, lavei louça. Dirigi o caminho inteiro escutando um podcast que promete ser bem interessante até o final. Estacionei o carro na sombra de uma árvore. Não vi um ser vivente. Suspiro. Um silêncio momentâneo rompido apenas pelo ônibus que faz sua rota.

Entrei, liguei as luzes, fiquei feliz ao descobrir um suco na geladeira, liguei o ar condicionado e enquanto meu computador esquentava os motores fui de assalto a cozinha mais uma vez. Me lembrei de algo engraçado que um colega falou sentado na mesa dias antes. Sigo para minha sala e encaro minha mesa com papéis e anotações rabiscadas. Ninguém nunca se atreveu a ler ou decifrar os meus hieróglifos - e não conheço egiptólogos em um raio de 400 km.

Não houve afobação, nem empolgação, nem mesmo aquele desânimo ao olhar para pilha de coisas que me aguardam. E a pilha é real, com papéis, pastas, certificados, anotações, lembretes; e ainda há a virtual com e-mails, e processos no sistema aguardando minha resposta para essa ou aquela situação.

Me sento, respiro fundo e coloco o celular o mais distante de mim e próximo ao carregador. Aliás, vale a observação, sou mestre em esquecer de verificar se o celular está carregando ou não. O resultado? O meu aparelho horas espetado sem carregar, e um sentimento de frustração. A última vez foi por causa do filtro de linha que estava desligado, e minha desatenção. Ponto pra tecnologia que cumpriu o seu papel e cartão amarelo para mim que não observei o sinal sonoro de carregamento do telefone.

Começo uma tarefa e encontro um erro. Perco alguns segundos tentando entender o que aquilo significa. Não compreendo. Começo uma nova, ou velha, demanda. Minha concentração se afia e o trabalho flui por alguns minutos até a chegada dele.

O meu “colega” chega no horário de sempre. Ele assobia (canta) e se refresca na água que pinga do aparelho de ar-condicionado. O pássaro, vou chamar de Gilberto, usa seu diminuto tamanho para fincar os pés na grade e se molhar embaixo da torrente tímida de gotas resultado da condensação do aparelho.

Estamos separados por um vidro. Eu, homem, dentro. Ele, pássaro, livre. Nos encaramos rapidamente. Ele pisca e pula duas vezes rapidamente, abre asas, se lança do alto e parte para mais um voo, para mais um dia. Lá fora, um mundo inteiro a descobrir. Como Gilberto é sortudo.

O que eu não daria para ter asas…


Marcel

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