Tirando as sandálias

Sábado, depois do meio-dia. Precisei vir ao local de trabalho fora do horário. Não havia ninguém, e não deveria mesmo. O ambiente, tão familiar com vozes e conversas, barulho de aparelhos de ar condicionado, passos, risadas, respirações. Nada disso se fazia presente. Era apenas eu e meus passos ecoando no corredor. Denunciando minha posição a cada instante. Quebrando a paz sagrada que esse ambiente experiementa sem a interferência da presença humana. Presente estava apenas o vazio, o silêncio, um ruído mudo - e ali estava eu. Um estrangeiro, um invasor, um intruso, pisando em terra santa e me sentindo indigno por quebrar algum pacto ou convenção. As paredes me cobravam e até o ranger da porta ao abrir me pareceu mais ameaçador. Eu não era bem vindo naquele lugar. Não, não era.

Me apressei para sair. Senti que até mesmo minha respiração ecoando pelo ambiente era um desrepeito. Por fim, fui vencido. Me despi, desisti de impôr minha existência, aceitei minha inconveniência e tirei as sandálias no meio do corredor. Pisei o chão frio de pedra e senti por alguns segundos me conectar com aquele estado de paz. Fiquei em silêncio, em pé, apenas me fazendo presente e apenas. Me entreguei ao momento, agucei minhas percepções, me conectei com as ausências e então deixei o ambiente sem olhar para trás. Certo de que da próxima vez, se é que ela vai existir, eu não serei uma presença indesejada.



Marcel

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